21 de setembro de 2015

Primeiras intenções

O primeiro post neste mísero blog sobre minha nada interessante vida, monótona e cheia de “bads”, recebe esse nome, não pelas intenções primárias de querer escrever, de relatar (nem sempre fielmente) as poucas aventuras que vivo e vivi ou de gravar, ainda que superficialmente, meus planos para um futuro que decerto muito diferente há de ser deste presente. Primeiras intenções vem do avesso, como que um trocadilho, do termo segundas intenções, e serve a partir de agora as palavras não ditas pelo beijo que um certo índio me deu há algum tempo atrás.

O tal índio da qual falo conheci através desses devaneios virtuais que juntam as pessoas que se querem, ou que querem gastar um tempo tentando se conhecer. A gente quis se reconhecer, mesmo que as cegas, e isso foi o barato da coisa. O ser indígena que aparecia ali lá tela do tablet muito me agradava, olhos verdes como as águas daquela Chicago, cabelo longo da tendência masculina (tipo o meu) e um sorriso encantador em toda sua timidez. Confesso que não acreditei quando vi ele tinha combinado comigo. Achei surreal demais ter um cara daquele interessado em mim, pois bem, são dessas alegrias únicas e passageiras que a vida também é feita. Sorte? Nunca tive. Ele era outra coisa, que não sorte. Era uma segunda chance na minha tentativa entender, esquecer e continuar tentando nesse jogo do amor. Amor aqui é só pra ilustrar, que fique claro.

Começamos a conversar e o índio e eu falávamos a mesma língua, compartilhávamos dos quase mesmos gostos, auditivos e visuais, e tínhamos ali o mesmo querer. Por que não? Se antes era impensado para mim querer encontrar alguém assim, em uma cidade que tão recentemente conhecera, agora eu tomava a liberdade de deixar acontecer, de não se preocupar, de se jogar e ver o quão fundo esse rio pode ser ou até onde ele é capaz de me levar. Mas o índio sabia nadar. Todo índio sabe. Marcamos e nos encontramos ali, na esquina da Halfeld, bem embaixo do relógio, próximo ao ponto do carrinho de pipoca. Ele solto nos cabelos e trajes indígenas  caminhava com uma blusa xadrez amarrada na cintura, tinha um estilo singular e simples, que de fato me pegou, não só por isso, mas com mais isso. Eu o abracei, mesmo que ele quisesse só um aperto de mão. Acho que defini logo o que queria, o que não é um envolvimento maior, mas um encontro que nada poderia resultar a não ser minimamente uma amizade por gostos em comum. Dali me levou para a UFJF. Como assim, para uma universidade, no primeiro encontro? E se dissesse que foi de ônibus? Não tirou o barato da coisa em sequer um mero momento. Antes, menti sobre não ter ido lá, só para ter um chãozinho, mínimo que seja, e saber pelo menos para onde estava indo e como voltaria para a casa duma amiga minha.

No campus andamos um pouco para lá, e um pouco para cá, a pé mesmo, já que a fila para alugar uma ou duas bicicletas estendia-se uns metros da estação e, que na real, não dispunha de tanta bicicleta para tantos que estavam ali. O gramado então foi a melhor parada, se não fosse os minúsculos insetos que rondavam nossas cabeças. Sabe aqueles mosquitinhos? Tinha um monte deles ali. O índio me levou então para um lugar no alto, o melhor deles, de onde veríamos a cidade inteirinha iluminada pelos postes e luzes das casas e apartamentos. A vista a partir daquele banco, agora para dois, era mágica, e mesmo que não prestasse atenção inteiramente nela, era refúgio nos lapsos dos meus olhos que insistiam em ficar parados nele. Falamos de música e shows, de atrizes e atuações, de filmes, de Toy Story e o choro incontido, das coisas dos gêneros e suas complicações, dos planos e experiências, das primeiras vezes e algo mais. Somos tímidos sim, e nossa conversa ficou ali, em duas bocas por duas horas ou mais. Minha amiga já ligava querendo que eu fosse embora, mas só queria ficar ali um pouco mais. Era bom ouvir o índio e todas suas abstrações da vida indígena.

As mensagens dessa amiga talvez tenham nos ajudado a falar de outros assuntos, ou melhor, não falar. Quando ele perguntou se tinha apenas uma única experiência em relacionamentos com homens, e minha resposta positiva, ele disse logo que eu não ia querer ficar com ele, ali, por ser o segundo. Nada a ver, disse eu. – (Eu) sai com uma intenção e não sei... – Ficamos em silêncio até que: – E qual é essa sua intenção? Eu disse. Um beijo dele foi mais que qualquer resposta, e aquilo carregava, um alívio imediato para as certas questões que rondavam minha cabeça. Um, dois, três, quatro e muitos mais foram os encontros de nossos lábios no alto daquela cidade. – Espera. Seu beijo é muito bom cara! – E um sorriso, ou dois, se fizeram juntos. Ficamos por mais alguns minutos e fomos embora. Para casa dele primeiro, e depois para a minha amiga. Ele ficou por lá, e eu por cá, mas não ficamos por aí. A promessa de ser ver novamente veio de prontidão, e mesmo que eu evadisse toda e qualquer investida, eu queria no íntimo estar com ele novamente. Agora satisfeitas as primeiras, o resto são segundas intenções!

Um fato que muito me atentou a todo momento que estive com ele, e que nada tem a ver com o índio, foi a minha impotência e um receio interno de não querer se entregar inteiramente àquilo que estava acontecido entre nós. Me incomodou, e a ele, ficar olhando o relógio o tempo todo e contar silenciosamente os minutos para partir. Mas, talvez tenha este sido um ponto positivo (ou não) para me impulsionar a querer o encontrar novamente, para pedir desculpas e fazer diferente, ou do jeito que tem de ser feito. Não quero cair nos discursos que mesmo faço sobre estar pela metade e de ser meio-copo vazio. De volta em casa, na camisa que ainda tinha seu cheio, eu quis, sinceramente, estar contigo, nem fosse por mais uns dez minutos. Ou uns dez anos, ou tão intenso quanto.