O primeiro post neste
mísero blog sobre minha nada interessante vida, monótona e cheia de “bads”,
recebe esse nome, não pelas intenções primárias de querer escrever, de relatar
(nem sempre fielmente) as poucas aventuras que vivo e vivi ou de gravar, ainda
que superficialmente, meus planos para um futuro que decerto muito diferente há
de ser deste presente. Primeiras
intenções vem do avesso, como que um trocadilho, do termo segundas
intenções, e serve a partir de agora as palavras não ditas pelo beijo que um
certo índio me deu há algum tempo atrás.
O tal índio da qual falo
conheci através desses devaneios virtuais que juntam as pessoas que se querem,
ou que querem gastar um tempo tentando se conhecer. A gente quis se reconhecer,
mesmo que as cegas, e isso foi o barato da coisa. O ser indígena que aparecia
ali lá tela do tablet muito me agradava, olhos verdes como as águas daquela
Chicago, cabelo longo da tendência masculina (tipo o meu) e um sorriso
encantador em toda sua timidez. Confesso que não acreditei quando vi ele tinha combinado comigo. Achei surreal demais
ter um cara daquele interessado em mim, pois bem, são dessas alegrias únicas e
passageiras que a vida também é feita. Sorte? Nunca tive. Ele era outra coisa,
que não sorte. Era uma segunda chance na minha tentativa entender, esquecer e
continuar tentando nesse jogo do amor. Amor aqui é só pra ilustrar, que fique
claro.
Começamos a conversar e o
índio e eu falávamos a mesma língua, compartilhávamos dos quase mesmos gostos,
auditivos e visuais, e tínhamos ali o mesmo querer. Por que não? Se antes era
impensado para mim querer encontrar alguém assim, em uma cidade que tão
recentemente conhecera, agora eu tomava a liberdade de deixar acontecer, de não
se preocupar, de se jogar e ver o quão fundo esse rio pode ser ou até onde ele
é capaz de me levar. Mas o índio sabia nadar. Todo índio sabe. Marcamos e nos
encontramos ali, na esquina da Halfeld, bem embaixo do relógio, próximo ao
ponto do carrinho de pipoca. Ele solto nos cabelos e trajes indígenas caminhava com uma blusa xadrez amarrada na
cintura, tinha um estilo singular e simples, que de fato me pegou, não só por
isso, mas com mais isso. Eu o abracei, mesmo que ele quisesse só um aperto de
mão. Acho que defini logo o que queria, o que não é um envolvimento maior, mas
um encontro que nada poderia resultar a não ser minimamente uma amizade por gostos
em comum. Dali me levou para a UFJF. Como assim, para uma universidade, no
primeiro encontro? E se dissesse que foi de ônibus? Não tirou o barato da coisa
em sequer um mero momento. Antes, menti sobre não ter ido lá, só para ter um
chãozinho, mínimo que seja, e saber pelo menos para onde estava indo e como
voltaria para a casa duma amiga minha.
No campus andamos um pouco
para lá, e um pouco para cá, a pé mesmo, já que a fila para alugar uma ou duas
bicicletas estendia-se uns metros da estação e, que na real, não dispunha de
tanta bicicleta para tantos que estavam ali. O gramado então foi a melhor
parada, se não fosse os minúsculos insetos que rondavam nossas cabeças. Sabe
aqueles mosquitinhos? Tinha um monte deles ali. O índio me levou então para um
lugar no alto, o melhor deles, de onde veríamos a cidade inteirinha iluminada
pelos postes e luzes das casas e apartamentos. A vista a partir daquele banco,
agora para dois, era mágica, e mesmo que não prestasse atenção inteiramente
nela, era refúgio nos lapsos dos meus olhos que insistiam em ficar parados
nele. Falamos de música e shows, de atrizes e atuações, de filmes, de Toy Story e o choro incontido, das
coisas dos gêneros e suas complicações, dos planos e experiências, das
primeiras vezes e algo mais. Somos tímidos sim, e nossa conversa ficou ali, em
duas bocas por duas horas ou mais. Minha amiga já ligava querendo que eu fosse
embora, mas só queria ficar ali um pouco mais. Era bom ouvir o índio e todas
suas abstrações da vida indígena.
As mensagens dessa amiga
talvez tenham nos ajudado a falar de outros assuntos, ou melhor, não falar.
Quando ele perguntou se tinha apenas uma única experiência em relacionamentos
com homens, e minha resposta positiva, ele disse logo que eu não ia querer
ficar com ele, ali, por ser o segundo. Nada a ver, disse eu. – (Eu) sai com uma
intenção e não sei... – Ficamos em silêncio até que: – E qual é essa sua
intenção? Eu disse. Um beijo dele foi mais que qualquer resposta, e aquilo
carregava, um alívio imediato para as certas questões que rondavam minha
cabeça. Um, dois, três, quatro e muitos mais foram os encontros de nossos
lábios no alto daquela cidade. – Espera. Seu beijo é muito bom cara! – E um
sorriso, ou dois, se fizeram juntos. Ficamos por mais alguns minutos e fomos
embora. Para casa dele primeiro, e depois para a minha amiga. Ele ficou por lá,
e eu por cá, mas não ficamos por aí. A promessa de ser ver novamente veio de
prontidão, e mesmo que eu evadisse toda e qualquer investida, eu queria no
íntimo estar com ele novamente. Agora satisfeitas as primeiras, o resto são
segundas intenções!
Um fato que muito me
atentou a todo momento que estive com ele, e que nada tem a ver com o índio,
foi a minha impotência e um receio interno de não querer se entregar
inteiramente àquilo que estava acontecido entre nós. Me incomodou, e a ele,
ficar olhando o relógio o tempo todo e contar silenciosamente os minutos para
partir. Mas, talvez tenha este sido um ponto positivo (ou não) para me
impulsionar a querer o encontrar novamente, para pedir desculpas e fazer
diferente, ou do jeito que tem de ser feito. Não quero cair nos discursos que
mesmo faço sobre estar pela metade e de ser meio-copo vazio. De volta em casa,
na camisa que ainda tinha seu cheio, eu quis, sinceramente, estar contigo, nem fosse
por mais uns dez minutos. Ou uns dez anos, ou tão intenso quanto.